O espetáculo de comédia que se afoga
Está um dia de sol fresco. Bate-me a brisa e a pele de galinha inunda-me. O burburinho das conversas dos turistas percorre as ruas do Pinhão. Junta-se o som dos barqueiros que chamam as pessoas, apressadamente, para entrarem nos seus barcos rabelos, castanhos, antigos, mas com uma subtileza moderna.
Um grupo de franceses ri alegremente, qual espetáculo de comédia hilariante. As suas gargalhadas ecoam nos nossos ouvidos, enquanto esperamos pela nossa viagem. Estão descontraídos. Talvez estejam de férias. Apesar de saber que era a língua do amor que estava ali junto a mim, não posso garantir que a realidade que eu penso, seja a realidade daquele grupo, dado que não percebo o movimento dos seus lábios e os motivos das suas gargalhadas.
A verdade é que eu estava em frente de cinco homens franceses, de calças de ganga e um casaco desportivo, numa vila do interior de Portugal, com câmaras fotográficas ao peito e a registar todas as pequenas coisas que cruzavam com o seu olhar: o cão que farejava os seus sapatos, os cafés submersos de indivíduos, a rua que deambulava com o velho solitário, o casal que os observava.
Mas no meio da alegria contagiante, mesmo sendo a sua voz desconhecida para todos, a língua universal adotada foi, entretanto, compreendida por aqueles que esperavam como nós.
A língua universal
O barco está pronto a atracar. O stress dos marinheiros anseia a nossa espera. O barco solta as cordas, as boias correm contra o cais, as ondas rebentam e salpicam-nos. O vento traz consigo a ansiedade de entrar no barco. A brisa traz raiva: a raiva e a ânsia de querer navegar e de afundar o espetáculo de comédia hilariante que se tornou terror. Dizem uns “This is very rude”, “Então é assim?”, “Hei”. Dizem os outros “Pardon Madame”.
E foi neste momento que a linguagem se tornou universal. Os olhos de todos incendiaram. Se calhar na França não têm a regra de esperar pela sua vez na fila. Engraçado! Quando fui à Paris tive três horas para entrar na Torre Eiffel e ninguém me cedeu a vez.
A beleza das ondas
A paisagem afoga-nos com a sua beleza. “O Doiro sublimado (...) Não é um panorama que os olhos contemplam: é um excesso de natureza”. Os seus sorrisos continuam. A descontração, as pernas cruzadas, o brilhar dos seus olhos ao ver os socalcos do Douro a “subir as encostas, volumes, cores e modulações”,as cervejas na mão transmitem a ignorância dada aos olhos incendiados dos outros. Depois do intervalo, o espetáculo de comédia continuava. As gargalhadas juntam-se com a alegria dos pássaros que acompanham o dobrar das ondas no barco.
Os salpicos de água inundam-me a pele de frescura. A água doce junta-se às gotas de gás que escorrem na minha mão da coca-cola que explode. Apresso-me para que o borbulhar da explosão se faça misturar com o meu paladar.
A tarde vai longa e o sol já reflete nas garrafas dos comediantes. A pressa sente-se no barco, e ao som das ondas era agora acrescentado o nervosinho de querer comandar a navegação, o vento, a água. O sobe e desce também me deixa com ansiedade, mas aos comediantes nada parece importar. O seu mundo parece estar fechado numa bolha, mas visível aos olhos de todos.
As escadas estão agora trasbordadas de pés que querem comandar o leme do barco. O frenesim já chegou à proa onde eu observava o espetáculo de comédia que ainda não acabara. Era a minha vez de marcar o compasso da viagem.
Ouço o chocalhar da água a bater na madeira do barco. O choro que não se infiltra entre as tábuas já envelhecidas, escoa para junto das gotas que escoltam o meu leme. Agora estou eu na minha bolha. Os risos, as conversas, o telintar dos copos que partem, a fúria da água... nada ecoa mais do que o ranger da madeira do leme que circula de mãos dadas comigo. Que bonito que é olhar o infinito. Mas chegou ao fim...
O fim
O espetáculo termina onde começou. A confusão instala-se na navegação e vive-se agora a correria para sair da água. As gargalhadas continuam a gargalhar nos nossos ouvidos, alguns indispostos pelo agitar das ondas.
O dia de sol virou estrelado. Termina o espetáculo de comédia. Termina a espera, a ansiedade, os risos, o vento, a brisa, a raiva, a língua universal, as gotas de gás, o choro da água... a viagem!

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